História de um natimorto

Já fui rico e já fui pobre
Nesse meio tempo
Fui homem e mulher
Ninfa e prostitutas,
Habitei os cantos mais remotos
e incongruentes do planeta
Visitei pinguins
Em outros momentos, troquei até de espécie

Já fui cão e já fui gato
Inclusive já fui chamado de cachorro
Entre outros mamíferos
Tenho lembranças do
Filo annelida
Sempre fui bom
E me deparei com cuidados para decompor
E destruir: nunca me incomodou a podridão

Tenho simpatia pelas galinhas
E por isso desconfio já ter com elas algum
Parentesco

Pra mim, a gente fumar cigarros explica o karma
Como qualquer outra coisa que se torna habitus

É que, supostamente, se algo nos habita esse monstro
Deve ser cheio de viés.

<a mais recente das descobertas
É ser nada, nada ser
Sem no entanto deixar de Ser>

<a gente aprende muito>
olhando as pedras no chão

A cronologia fluxo-lógica da vida
Dá espaço a algo que só vem às letras
Psicografado
Naturalmente ignorado pelos
Do circulo
Da matéria e do tempo

O mundo humano só continua
Enquanto houver expansão
De outros mundos análogos
E dependentes uns dos outros,

Algo assim me foi dito um dia
Por um filósofo-demiurgo
Que já zerou a crise climática

E, no entanto, já é quase proibido
Parar
Se posicionar em frente a uma árvore

E pegar cuidadosamente, sem violência
Em silêncio
O seu fruto (da árvore)

Mais ainda proibido,
É comer o fruto que se roubou (da árvore),
Se for o caso, antes, desgrudar da casca
E dar uma mordida pornográfica na fruta

([as árvores] estão em processo de elipse) – portanto devem ser bem guardadas

Sim, roubou,
Com (as árvores) não existe propriedade
O fluxo que elas são encontram o fluxo que somos
em uma então não denominada mistura nuclear subatômica
que de qualquer maneira nos faz gostar (de árvores)

Que vida irônica,
A primeira proibição inaugurou o pecado
E nos condenou à vida

O homem então com suas pedras
E seus cajados andou pela Terra
E proibiu os frutos,
Desde que sejam mercadorias embebidas
Em veneno.

Que vertigem!
Que ilusão ver deuses descerem das pedras
e dos cajados
Para então ascender às máquinas e
Aos fascismos dos homens
bem programados!

assassínio em linhas tortas

Escrevia mal, argumentava o professor na folha de redação despedaçada por ponta de caneta vermelha. Faltava coesão, coerência textual! o aluno pulava as alcachofras da escrita, não eram sóbrias as linhas traçadas pelo coração do estudante (é necessário escrever em linhas retas calibradas segundo arquitetura erudita). Ai da civilização ocidental se as linhas fossem tortas, se as linhas fossem tortas a linguagem selvagem… se.
Não se pode divagar em trinta linhas! pode-se muito bem cozinhar bolo ou passar no vestibular. Aconteceu que o aluno gostava de bolo e queria passar no vestibular. O tempo tratou de entalhar em pedra a mão do aluno. Suas linhas, que eram tortas, enformaram-se. O pensamento digressivo e com tendências a praticar piruetas enquadrou-se em um quadro onde a linguagem possui graduação volumétrica. O aluno, antes poeta, matou-se no verbo perdeu-se na vírgula e convenceu-se de que o principal na exclamação é ponto final!

parajanov

Parajanov
Poeta dos deuses causais
Vinde, o leste europeu causar-me repulsa
Dono dos amores morais, encontros mais casuais

Causa espasmos, querido companheiro,
suas belezas precárias donas belas sociais
parceiras de casos mortais.
Pra você é apenas sentimentos, interiores portanto,
questão de profundidade.
Pra mim é belo, penetrante mortal,
me assusta o quanto és real.
Cortes na imagem profunda,
estática colorida.

Morte

*

Você é fogo
sua roupa é fogo
brilhante cetim
preto
não expressas movimentos

o preto fez o fogo queimar-te até a morte [ou depois até]
por não saberes admirar um palmo à frente de ti

*

Minha arte não é popular muito menos
Admiro Maiakovski dos poetas suicidas

Não há o tipo geral de sábios, feitos em monastério
Até ouvi dizer que eles também enriquecem à custa da fé
O tal não orienta minhas letras;
Os pecados, coitados, cansados apertam o passo

agosto//2017.

conceito sob pele

Talvez há de se buscar um conceito, provavelmente há de se mostrar algo através de uma delimitação branda do espaço que se configura assim para que se possa ir além, além as palavras tomam para si o corpo dos significados dos conceitos.

Ele acordou ao meio dia com o impulso agitado de se aprontar, sair do quarto, encontrar-se com alguém ou arrumar algo para fazer. Dormir até tarde lhe causava um mal estar de se sentir inútil. O que, de fato, não lhe era tão estranho.

Quando foi se trocar descobriu, ao tatear a mão, que as suas genitálias tinham sumido, havia no lugar da rugosa e disforme carne uma pele lisa que seguia de forma natural o aspecto de seu corpo.  Embora a nova situação em que se encontrava lhe parecia peculiar, não lhe chamou muita atenção, agradaram-lhe até as novas curvas de seu corpo, além disso, não havia muito o que ser feito: havia de se resignar ao fato de não mais possuí-las.

O moço saiu de casa pensando-se em sua nova situação. Será que isso poderia trazer-lhe algum encargo inesperado, ou acentuar nele o sentimento de que estaria, novamente, sozinho? O moço estava, antes de tudo, com fome e comeria a primeira coisa que encontrasse na feira. A caminhada era um hábito que lhe trazia a sensação de estar viajando quando estava frio, e sufocando quando calor, mas o momento era tal que tudo lhe era indiferente.

Tinham combinado logo depois do meio dia para se encontrar e, talvez, almoçar para começar o dia – como normalmente faziam. Ele não tinha fome e, pensou, não se importava em ficar ali parado vendo o dia passar, mas tinha combinado o almoço com os dois amigos, e gostaria de vê-los.

Decidiu contar-lhes a sua situação de ter perdido as genitálias como forma de introduzir um assunto, que embora não muito especial poderia resultar em algumas outras conversas mais interessantes. Para sua surpresa, entretanto, os amigos demonstraram interesse. Explicou-lhes o que pôde da situação como quem explica a leigos um assunto de sua especialidade – afinal, não era a primeira vez que vivia tal excursão. Um dos amigos se comoveu com a história porque lembrou-lhe de uma situação parecida que se passou uns anos antes. Trata-se da espada de um cavaleiro das cruzadas, que encontrou certa manhã encravada em suas costas, porém a espada tinha sido enfiada tão precisamente sob a pele que não causou-lhe nenhum mal, somente o susto e o desconforto de acordar com uma espada empunhada às antigas. O moço sem genitálias lembrou-se da história, e inclusive disse ao amigo que foi um dos que o ajudou a tirar a fina espada entalhada sob a pele. A isso o amigo, com um sorriso comovido, respondeu:

“Eu sei”

E, depois de colocar a mochila sobre a mesa, tirou um embrulho feito de papel. 

Tome, aqui estão novas genitálias, e, lembre-se, amigo, se algum dia dela cansares e quiser-lha, com a mão arrancar, não sofras, lembra-te: ainda tenho aquela antiga espada.

Sete peitos

Embaixo

Guardo-te eu

Em mim

Lembrando todos vocês, o

  Amor, acontece, é subproduto

Destas outras nuances

Recôncavos dos afetos.

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