ninguém sabe nada disso. nem que a parte de maior desgaste e incongruência de mim é o começo dos textos, dos bilhetes e confissões.
sou fragmento, desconexão contínuo e estável de um todo maquinal e contorcido. tenho as ideias na cabeça que externaliza-se em necessidade corrente de palavras. a solidão nunca me assustou. tenho tics, tocs, tucs e algumas virtudes. almoço e janto só ou em companhia de algumas letras de sopinhas. as pessoas olham-me como se algo de humano faltasse em minha feição, há algo de desconhecido em mim – porque não expresso, assim como há nas pessoas algo muito extravasado que exagera. é claro, não todas as pessoas. só as normais. a minha lógica é simples direta, embora nessas conexões haja excesso de transposições – odeio mediações e vejo a palavra enquanto gesto, intensidade e movimento, dotada portanto de aleatoriedade e do que não se pode saber.
as letras, as palavras para mim não são o que parecem. repudio a filosofia enquanto abstração mediada por ideias, um universo paralelo que acessa o inacessível. sou pobre e por isso exploro a filosofia da miséria, e a miséria da filosofia. gosto dos filósofos que trazem o sentido dos conceitos para o aqui e agora.
aos onze não olhava nos olhos das pessoas. não costumava valer a pena; ainda nem sempre. geralmente prefiro o silêncio à palavra embora me encanta todos os sons. é que a palavra tende facilmente à petulância e à prepotência do ridículo – a voz do eu.
falando nisso, por vezes (nos melhores momentos) estou despersonalizado e, embora tenha ideias e pensamentos, não os chamo de meus. não os chamo.
tenho dificuldades de me misturar nos grupos e dar atenção às individualidades quando há multidão. aprecio multiplicidades e sei dela fazer parte. vou me conhecendo às vezes enquanto memória gasta, enquanto livro lido e esquecido, enquanto repetição. depois me descubro pó, luz, solidão. essa história só pode ser contada enquanto diferença que de cima para baixo é continuidade e de baixo para cima descontinuidade, o que faz com que eu e o outro sejam idênticos.
a linguagem é afeto e as palavras são para mim uma forma de acariciar o mundo. por isso cuido delas. por isso salvo saliva e cuspo muito, ao invés de palavras. idealmente eu não sairia de casa, mas ela teria que ter o sol dentro dela e palavras suficiente. gatos e muito mato. não tem. não moro em uma casa assim, por isso tenho um gato e ando de bicicleta como se corresse mais depressa e mais depressa tivesse mais acesso ao sol.
repito a vida humana em um outro mundo. um mundo de menos fala, e mais olhos nas estrelas. neste mundo sofre-se igual, embora com diferença. sofrimento, grande massa, Ser e o Tempo, no qual a vida expressa-se em movimento.
sou monótono quando falo, as vezes charmoso quando no ofício, muito exigente comigo mesmo e por isso de severidade nos modos. exceto quando danço exausto e chamo pela grande árvore. para tudo o que sou, há um não sou que dá potência ao mistério. é por isso que não me defino e acho o termo “autista” inadequado, cada definição tem como premissa a estabilidade e similitude do acontecimento que as palavras acompanham, quando na verdade sou inteiro repetição e diferença, movimento descrito no hiato, no que falta ao gesto, no insuficiente ao olhar, no querer mais do desejo, no insatisfeito, como tu! e, portanto, estranho às ideias e mediações abstratas.
escrever é dar forma à essa espessa insuficiência. é realizá-la e já perder-se novamente no vazio do nada incongruente, um infinitesimal aceitar a contradição perene imposta pelo pensamento. a vida é possível sim, mas há de se aprender as formas e cantos das realidades mais imediatas das quais fazemos parte, a vida, como a morte, é expressão de um fluxo com um certo funcionamento, que no entanto pode mudar. não se trata mais de reconhecer e aprender as leis naturais baseadas nos signos semelhantes, mas de reconhecer que os signos têm vida própria em nosso imaginário e que outras realidades se escondem em outros campos e espaços. aí está a força dos diferentes, dos que habitam outros espaços, dos à margem, para além da nossa borda cultural concreta limitada. esses diferentes modificam a anatomia da consciência coletiva – se é possível falar disso – na medida em que põem em jogo forças inexistentes&invisíveis ou contrárias à direção espontânea.
com isso chegamos ao ponto em que é necessário dizer que o que sou não se mede na diferença dos centímetros entre nossos cerebelos, parte esquerda, parte direita. Kaspar Hauser era um igual mais interessante, pois que fugiu do comportamento compulsivo do igual e viveu um sonho em que a imaginação era mais relevante aos sentidos. a visão, ignorada como fundamental na história de Kaspar, como sentido-perturbação que pode ser reinterpretada ou antes, ignorada. a sociedade europeia de então, e, portanto, o ocidente é limitado em qualquer busca e possibilidade de um aprofundamento superior pois às amarras de algo como o que se vê, a diferença dos centímetros à diferença do que pode vir a ser.
assim, estou no instante entre as sinapses, entre a energia do pensamentos como qualquer um outro. se a forma e a intensidade com que os expresso são únicos, assim também é com os outros entre nós. nesse sentido, cada repetição do eu é uma diferença. é por essas e outras que considero indiferente me definir como aspie ou como qualquer outra coisa, a não ser que essa diferença quando percebida e ‘lingualizada’ leva à percepção da diferença e à mudança – como se houvesse uma mais relevante que a outra – no movimento que nos engloba. infelizmente, somos percebidos enquanto elemento-objeto de um complexo arcabouço de signos constituídos não por naturalidade mas historicamente, objeto-estação, quando na verdade todos, além de aspies, somos aspirantes a movimento indissolúvel e repetição da vida. no momento em que, sociedades e sujeitos, nos dedicarmos mais seriamente à contemplação desse movimento maior e total, epidérmico, do qual somos e pertencemos poderemos continuar aprendendo.
14.03.2020