Sóis e sombras

já que não podemos o toque
venha ao menos me beijar
para sanar necessidades
de contemplação e assim
fazer zerar corpo-a-corpo
toda essa angústia

de sexo, de gozo, de amor

será que ainda sei pegar
o fruto dessa árvore com minhas
próprias mãos imundas? Sujas do mundo.

será que ainda posso me banhar
no mar, no lago… na piscina?

Ainda existe isso de
piscina, lago… mar?

o que já é o corpo? Tão distante
de mim, tão perto de você.

o que ainda é você? onde se encontra
sua alma delgada que já de longe
retirou-se em florestas, chuva, e poesia?
tens alma ou és só corpo?

Responda-me, minha querida

Em qual floresta estás
em que rua, número e telefone posso te encontrar

O que é te encontrar?

Me diz, tens cachorro, um gato pelo menos?

És feliz?

Alegro em saber que não esqueceste
a poesia em outros lençois, mas devo
dizer: antes de tudo, poesia é movimento,
ao invés de páginas desbotadas só
se encontra em vida, corpos e sentidos.

Quero poder encontrar-te novamente
Sem medo, um abraço apertado
Dias de Sol, filmes na cama
Juntos, encontrar uma árvore
Alcançar aquele fruto e,
uma vez mais, fazê-lo entre nós.

abril 2020

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