Sorry we missed you

Falência, desespero, maus-tratos. O filme nos remete a um mundo de perda total de sentido. A confusão da personagem lembra, a nível psicológico, a personagem de Sennet em a corrosão do caráter. Rico é um trabalhador mais bem-sucedido, ou mais qualificado, que, no entanto, enfrenta um mesmo sentimento de estar perdido.

No entanto, diferente de Rico, Ricky Turner vive uma realidade de trabalho mais cruel pois é fisicamente, além de psicologicamente, submetido a alcançar resultados de desempenho cada vez mais arriscados, enquanto tem que pagar por desvios definidos pela programação automática da ‘arma’ – cujo preço, descobrimos sentados no hospital, é 1000 libras.

Há no filme muitos possibilidades de interpretação e desenvolvimento, por exemplo a relação familiar e como ela se desgasta, a relação pai-filho conflituosa e que se torna violenta (o trabalho aparece então como violência, pois fonte de violência, uma brutalidade insidiosa e primitiva), a cena simbólica e bonita de Liza devolvendo a chave escondida no urso de pelúcia, enfim, o fim da família descrito na pichação em escracho de Seb, etc. Mas o que gostaria de analisar com alguns detalhes são as cenas finais do filme. Momento em que, na manhã seguinte ao hospital, Ricky acorda, deixa um bilhete e às 6:30 da manhã, decide ir ao trabalho.

O filme é, desde as primeiras cenas, ou antes, desde as primeiras frases, fonte de simbolismos cujas imagens remetem à a algo como uma ilusão ou algo como uma promessa: que o trabalhador supere sua posição de força de trabalho e se torne algo como um autônomo, um chefe de si mesmo, um franqueado, ou seja, a promessa da independência do labor, do tripalium. Ao contrário, o absurdo das últimas cenas deixa claro a tese pela qual transbordam os símbolos no filme: Ricky aprofundou-se em dependência não apenas por precisar de dinheiro para sobreviver, mas por que se não trabalhar ele deve pagar ao chefe, se a sua performance não for satisfatória também deve pagar – mesmo que seja pegando uma rota menos lucrativa, e no limite, se as informações e as análises retornadas pela ‘arma’ forem insatisfatórias, Ricky deve pagar perdendo o emprego. De qualquer forma, Ricky se encontra em um estado de dependência, e vai ao trabalho nas últimas cenas como se um viciado em heroína buscasse uma dose de redenção – sabendo que essa será o seu fim.

“Don’t be angry Abby I’ll be fine” Sorry we missed you, 2019

Um outro momento em que essa relação de dependência se mostrou evidente está presente na imagem acima, em que o bilhete destinado a sua esposa é escrito na ficha da empresa em caso de ausência do destinatário. Aqui fica claro, o ‘chefe de si mesmo’ funciona para o trabalhador somente na medida em que é possível mercantilizar o que ainda existia intocado. O destinatário que antes era todo e qualquer estranho-cliente cujo encontro era guiado por um aplicativo transplanta-se às relações cotidianas, e a lógica da empresa se sobrepõe à lógica da vida. É nesse momento que Ricky desaparece por completo, também a própria dependência desaparece pois reduz-se ao absurdo – sorry we missed you.

Depois, Ricky na van, Seb seguindo-o, Ricky justifica-se dizendo que 6 meses dali tudo estaria bem, Abby, em seguida de Lizy. Há esse movimento em torno da ruptura da família, como se acabássemos de presenciar uma despedida. É bem possível dizer que o filme é tão escatológico porque tem como principal alguém como Ricky e não Abby, por exemplo, que chega a agradecer a sua paciente idosa sábado à noite por requerer seus cuidados. O próprio Seb é uma figura tal que não reflete a decadência do pai, porque sabe de si, não se deixa guiar, é de sobremaneira insubmisso, sofra o que vier. Lizy também, roubando as chaves. Enfim, a separação familiar parece também caracterizar essa cisão em torno de algo como um esforço ou uma tendência à práticas de contra-conduta. De um lado temos então, Ricky e toda a tragédia de sua submissão; de outro, simbolizada pelos outros na família, tem-se a esperança (mais numerosa e mais sustentável) de explosões micro-corpusculares que fazem nascer outros mundos.

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