Falência, desespero, maus-tratos. O filme nos remete a um mundo de perda total de sentido. A confusão da personagem lembra, a nível psicológico, a personagem de Sennet em a corrosão do caráter. Rico é um trabalhador mais bem-sucedido, ou mais qualificado, que, no entanto, enfrenta um mesmo sentimento de estar perdido.
No entanto, diferente de Rico, Ricky Turner vive uma realidade de trabalho mais cruel pois é fisicamente, além de psicologicamente, submetido a alcançar resultados de desempenho cada vez mais arriscados, enquanto tem que pagar por desvios definidos pela programação automática da ‘arma’ – cujo preço, descobrimos sentados no hospital, é 1000 libras.
Há no filme muitos possibilidades de interpretação e desenvolvimento, por exemplo a relação familiar e como ela se desgasta, a relação pai-filho conflituosa e que se torna violenta (o trabalho aparece então como violência, pois fonte de violência, uma brutalidade insidiosa e primitiva), a cena simbólica e bonita de Liza devolvendo a chave escondida no urso de pelúcia, enfim, o fim da família descrito na pichação em escracho de Seb, etc. Mas o que gostaria de analisar com alguns detalhes são as cenas finais do filme. Momento em que, na manhã seguinte ao hospital, Ricky acorda, deixa um bilhete e às 6:30 da manhã, decide ir ao trabalho.
O filme é, desde as primeiras cenas, ou antes, desde as primeiras frases, fonte de simbolismos cujas imagens remetem à a algo como uma ilusão ou algo como uma promessa: que o trabalhador supere sua posição de força de trabalho e se torne algo como um autônomo, um chefe de si mesmo, um franqueado, ou seja, a promessa da independência do labor, do tripalium. Ao contrário, o absurdo das últimas cenas deixa claro a tese pela qual transbordam os símbolos no filme: Ricky aprofundou-se em dependência não apenas por precisar de dinheiro para sobreviver, mas por que se não trabalhar ele deve pagar ao chefe, se a sua performance não for satisfatória também deve pagar – mesmo que seja pegando uma rota menos lucrativa, e no limite, se as informações e as análises retornadas pela ‘arma’ forem insatisfatórias, Ricky deve pagar perdendo o emprego. De qualquer forma, Ricky se encontra em um estado de dependência, e vai ao trabalho nas últimas cenas como se um viciado em heroína buscasse uma dose de redenção – sabendo que essa será o seu fim.

Um outro momento em que essa relação de dependência se mostrou evidente está presente na imagem acima, em que o bilhete destinado a sua esposa é escrito na ficha da empresa em caso de ausência do destinatário. Aqui fica claro, o ‘chefe de si mesmo’ funciona para o trabalhador somente na medida em que é possível mercantilizar o que ainda existia intocado. O destinatário que antes era todo e qualquer estranho-cliente cujo encontro era guiado por um aplicativo transplanta-se às relações cotidianas, e a lógica da empresa se sobrepõe à lógica da vida. É nesse momento que Ricky desaparece por completo, também a própria dependência desaparece pois reduz-se ao absurdo – sorry we missed you.
Depois, Ricky na van, Seb seguindo-o, Ricky justifica-se dizendo que 6 meses dali tudo estaria bem, Abby, em seguida de Lizy. Há esse movimento em torno da ruptura da família, como se acabássemos de presenciar uma despedida. É bem possível dizer que o filme é tão escatológico porque tem como principal alguém como Ricky e não Abby, por exemplo, que chega a agradecer a sua paciente idosa sábado à noite por requerer seus cuidados. O próprio Seb é uma figura tal que não reflete a decadência do pai, porque sabe de si, não se deixa guiar, é de sobremaneira insubmisso, sofra o que vier. Lizy também, roubando as chaves. Enfim, a separação familiar parece também caracterizar essa cisão em torno de algo como um esforço ou uma tendência à práticas de contra-conduta. De um lado temos então, Ricky e toda a tragédia de sua submissão; de outro, simbolizada pelos outros na família, tem-se a esperança (mais numerosa e mais sustentável) de explosões micro-corpusculares que fazem nascer outros mundos.