Kafkaesco

Hoje encontrei Kafka, ele me disse sorrindo os homens não pensam não, bobinho. Ele contou que o pai era amoroso e que por isso às vezes violento. Era grande, viril e violento. Franz era tímido, fraco e com vergonha de seus ossos – o que está em ti além dos ossos? A culpa, brincou o moço que morreu aos quarenta. Tentou de tudo, só não me disse se encontrou a paz, percebi, a angústia era tremenda. A culpa tamanha. Algumas coisas arrepiam, não dá pra ter muitas vontades frente a um muro gigante, de sobrecasaca preta suportando um chapéu brilhante.

Mas ele insistiu: os homens não pensam não, e poucos vivem racionais; e que no decorrer essa culpa é de todo abstrata, como a própria ideia da civilização moderna, antiga ou a dos qualquer coisa. E, se já não tem vontade do fazer humano, é porque está muito cansado, inconsciente e com alguma coisa acostumada. Kafka disse não existia Prozac, por isso viviam tão pouco os homens das cavernas – ave batuques mentais e dores nas juntas, ave Lúcifer.

Quando perguntei como eu poderia viver e conseguir pular o muro, meu amigo sugeriu unguentos e o proveito no privilégio dessas novas tecnologias de meditação, disse também para que eu acreditasse em algo, fosse o que fosse mesmo que triste ou de gosto estranho, ‘a reprova está garantida’ – e ninguém liga, mas é simples, pra que eu acessasse os caminhos de minha aceitação.

Comentário de um pseudônimo

E mesmo lá as trevas sentem-se presentes. Mesmo no paraíso presenciamos o inferno oposto à felicidade. Condição de mente, de vida, sabores.. não sei, certo de que a realidade nunca desfez-se companheira, nem a morte inimiga. A barreira que nos repele a vida tem se alongado e ardido em tempos verbais inventados, pois quando digo que minhas palavras se sobrepõem a linguagem estabelecida nos acordos de escrita, tento dizer: tudo o que sinto é incomunicável, e minha confusão muito larga para que a materialize natimorta em traços finos.

A culpa não se esvai. Posso, no entanto, profanar o espaço em que se constitui esse mal estar. Entre as paredes, muros desta casa, jorrar o fluxo fumacento da chama do impuro. O que achariam, meus pais absortos, deste enigma pecado, desta lama e deste mal autodestrutivo?

Tenho que estudar para reparar não sei o quê, para poder me mover entre o pó, mais do que sou feito, mais do que tenho vontades e as tenho, trancadas em um baú da sorte. Os pensamentos confinam-se aqui.

julho de 2016

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