Talvez há de se buscar um conceito, provavelmente há de se mostrar algo através de uma delimitação branda do espaço que se configura assim para que se possa ir além, além as palavras tomam para si o corpo dos significados dos conceitos.
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Ele acordou ao meio dia com o impulso agitado de se aprontar, sair do quarto, encontrar-se com alguém ou arrumar algo para fazer. Dormir até tarde lhe causava um mal estar de se sentir inútil. O que, de fato, não lhe era tão estranho.
Quando foi se trocar descobriu, ao tatear a mão, que as suas genitálias tinham sumido, havia no lugar da rugosa e disforme carne uma pele lisa que seguia de forma natural o aspecto de seu corpo. Embora a nova situação em que se encontrava lhe parecia peculiar, não lhe chamou muita atenção, agradaram-lhe até as novas curvas de seu corpo, além disso, não havia muito o que ser feito: havia de se resignar ao fato de não mais possuí-las.
O moço saiu de casa pensando-se em sua nova situação. Será que isso poderia trazer-lhe algum encargo inesperado, ou acentuar nele o sentimento de que estaria, novamente, sozinho? O moço estava, antes de tudo, com fome e comeria a primeira coisa que encontrasse na feira. A caminhada era um hábito que lhe trazia a sensação de estar viajando quando estava frio, e sufocando quando calor, mas o momento era tal que tudo lhe era indiferente.
Tinham combinado logo depois do meio dia para se encontrar e, talvez, almoçar para começar o dia – como normalmente faziam. Ele não tinha fome e, pensou, não se importava em ficar ali parado vendo o dia passar, mas tinha combinado o almoço com os dois amigos, e gostaria de vê-los.
Decidiu contar-lhes a sua situação de ter perdido as genitálias como forma de introduzir um assunto, que embora não muito especial poderia resultar em algumas outras conversas mais interessantes. Para sua surpresa, entretanto, os amigos demonstraram interesse. Explicou-lhes o que pôde da situação como quem explica a leigos um assunto de sua especialidade – afinal, não era a primeira vez que vivia tal excursão. Um dos amigos se comoveu com a história porque lembrou-lhe de uma situação parecida que se passou uns anos antes. Trata-se da espada de um cavaleiro das cruzadas, que encontrou certa manhã encravada em suas costas, porém a espada tinha sido enfiada tão precisamente sob a pele que não causou-lhe nenhum mal, somente o susto e o desconforto de acordar com uma espada empunhada às antigas. O moço sem genitálias lembrou-se da história, e inclusive disse ao amigo que foi um dos que o ajudou a tirar a fina espada entalhada sob a pele. A isso o amigo, com um sorriso comovido, respondeu:
“Eu sei”
E, depois de colocar a mochila sobre a mesa, tirou um embrulho feito de papel.
Tome, aqui estão novas genitálias, e, lembre-se, amigo, se algum dia dela cansares e quiser-lha, com a mão arrancar, não sofras, lembra-te: ainda tenho aquela antiga espada.
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Sete peitos
Embaixo
Guardo-te eu
Em mim
Lembrando todos vocês, o
Amor, acontece, é subproduto
Destas outras nuances
Recôncavos dos afetos.